domingo, 18 de fevereiro de 2018

Busca matemática acaba em uma igreja

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Ciência+Tecnologia
A descoberta de um número primo, foi feita no local mais improvável: o computador de uma igreja em um bairro de Memphis, Tennessee.
"O número 3, por exemplo, é primo, porque você só pode dividir 3 por 1 ou por 3", explicou Pace. "O número 5, o 7 e o 11 também são primos. Mas o 9 não, porque você pode dividir 9 por 1, por 3 e por 9." A divisão exata é aquela em que o resultado é um número inteiro.
maior número primo já registrado foi descoberto no fim de dezembro por Jonathan Pace, um engenheiro eletricista de 51 anos que mora no estado do Tennessee, nos Estados Unidos, e trabalha para a empresa de entregas FedEx. Pelo feito, Pace tem direito a um prêmio de quase R$ 10 mil, mas, em entrevista ao G1, ele já avisou que vai doar a quantia.
A descoberta faz parte do projeto Grande Busca na Internet pelo Primo Mersenne (ou Gimps, na sigla em inglês), que desde 1996 reúne milhares de voluntários em todo o mundo e já descobriu 16 números primos. Para participar, basta ter um computador e instalar um programa gratuito: assim, eles "emprestam" o tempo livre de seus computadores para a realização de cálculos automáticos enviados por um servidor central.

O objetivo é descobrir cada vez mais números primos, que são aqueles com os quais só é possível fazer uma divisão exata pelo número 1, ou pelo próprio número primo.Além do dinheiro (que, dependendo do número encontrado, pode chegar a mais de R$ 300 mil), os voluntários têm interesse no projeto para ajudar no avanço da matemática e também, quem sabe um dia, entrar para a história ao lado de grandes matemáticos do passado, como Euler e Euclides, que também estudaram os números primos.
Na vida prática, esse tipo de número também tem algumas utilidades: eles já foram usados, por exemplo, na elaboração de algoritmos de criptografia, segundo explicam os responsáveis pelo projeto Gimps.

14 anos como voluntário

Engenheiro do Tennessee, casado com uma professora de educação infantil e com dois filhos de 19 e 22 anos, Pace tem oficialmente um diploma de engenharia elétrica, mas diz que hoje a graduação feita por ele foi rebatizada de engenharia de computação. Ele é funcionário da FedEx desde 1990, mas sua paixão pela matemática vem desde o ensino médio, quando ele foi incentivado por um professor da área.Na data da descoberta, em 26 de dezembro, ele já era voluntário do projeto havia 14 anos e mantinha nada menos do que 18 computadores conectados ao servidor central do Gimps. "Lá em 2003 eu li uma reportagem na internet sobre a descoberta do 40º número primo Mersenne", contou ele.
"O texto mencionava que qualquer pessoa poderia participar, e que uma fundação daria um prêmio de 100 mil dólares para quem achasse o primeiro número primo com 10 milhões de dígitos."
"Pensei que eu tinha a mesma chance que qualquer outra pessoa", explicou Pace. Desde aquela época, o desafio da fundação levou cinco anos para ser completado. "Acho que em 2009 outra pessoa encontrou o número e levou o dinheiro. Mas naquela época eu já estava engajado, tinha quatro computadores no projeto."
Agora, ele se tornou o nome por trás da descoberta do 50º número. A cada novo número encontrado, fica mais raro que outro apareça, mas acredita-se que existe uma quantidade infinita de números primos.

M77232917

No release oficial divulgado pelo Gimps em 3 de janeiro, confirmando a descoberta, o número encontrado por Pace é chamado apenas pelo seu apelido (M77232917), ou por sua representação na forma reduzida (2 elevado à 77.232.917ª potência menos 1).
O motivo é simples: ele tem 23 milhões de dígitos, o que dificulta sua representação.
Você sabe quão grande é um número com 23.249.425? (Foto: Roberta Jaworski/G1)Você sabe quão grande é um número com 23.249.425? (Foto: Roberta Jaworski/G1)Você sabe quão grande é um número com 23.249.425? (Foto: Roberta Jaworski/G1)
Os primeiros 7.500 dígitos do maior número já registrado, que tem 23.249.425 dígitos (Foto: Reprodução)


Em um teste, o G1 tentou colar o número completo nesta reportagem, já sabendo que seria impossível. Dito e feito. A barra de texto congelou e, após 30 segundos, o navegador mandou avisar que havia travado. Então pensamos em divulgar apenas os 50 primeiros dígitos, já pedindo perdão por qualquer quebra de página estranha na sua visualização: 46733318335923109998833558556111552125132110281771.
A ideia seguinte foi fazer uma captura de tela com os dígitos em um tamanho legível. O resultado é uma imagem contendo os 7.500 primeiros dígitos. Essa tela você pode conferir abaixo, mas precisaríamos de outras 3.098,9 para dar conta do número completo.Embora no navegador a tarefa seja complexa, é sim possível vê-lo por extenso. O leitor ou leitora com interesse em fazer isso precisa baixar um arquivo zip. Não se preocupe, ele contém apenas um arquivo de texto com 23.249.425 dígitos. Eles ocuparão 22,6 megabytes do seu computador.

Número primo x número primo Mersenne

O número descoberto por Pace é considerado "raro" e se encaixa na categoria de "números primos Mersenne". A diferença entre um "Mersenne" e outros primos é que eles se encaixam em uma forma específica: 2 elevado à potência P menos 1.
Eles foram batizados em homenagem a Marin Mersenne que, segundo o projeto Gimps, foi um monge francês famoso por estudar esse tipo de número há mais de 350 anos.
O engenheiro explicou ao G1 que essa forma específica, introduzida pelo monge, sempre leva a um resultado binário. Isso quer dizer que incluir qualquer número no lugar de P leva o cálculo ou ao resultado 1, ou ao 0. Assim, é possível rodar softwares em computadores para que eles possam realizar um grande número de cálculos com números diferentes sem a supervisão humana. Esse é o trunfo do projeto Gimps, diz ele, para testar uma grande quantidade de números e descobrir quais são de fato primos, ou seja, quais representam as agulhas perdidas em um infinito palheiro.
"O programa faz o computador consumir mais eletricidade, porque ele está usando todos os ciclos da CPU, mas ele não desgasta seu computador mais rápido."
Sempre que um dos computadores faz o cálculo pedido pelo projeto e o resultado é 0, isso significa que o número é primo. Porém, o próprio computador não sabe disso e, para não perder nenhuma descoberta, Pace diz que o coordenador do projeto elaborou um comando que envia um alerta por e-mail sempre que o resultado do cálculo é igual a 0.
No caso do M77232917, a descoberta só foi confirmada e divulgada publicamente depois que o número foi testado por quatro pessoas em quatro computadores diferentes, rodando programas variados para eliminar a possibilidade de falha na máquina.

Computador de igreja fez descoberta

O computador que "tirou a sorte grande" e recebeu o número para fazer o cálculo pertence à Igreja de Cristo de Germantown, no Tennessee.
Além de frequentador da congregação, Pace explicou que é também voluntário na manutenção dos computadores e dos sistemas de informática do local. As máquinas da congregação eram algumas das 18 que o engenheiro mantinha conectadas ao projeto Gimps.
"Foi o computador usado pelo ministro de educação da congregação. O computador é 'agnóstico' [ou seja, 'sem conhecimento'], então ele só informou o resultado ao servidor, e pediu uma nova tarefa. Quem me avisou sobre a descoberta foi o coordenador [do projeto]." - Jonathan Pace
Por causa disso, ele diz que escolheu doar o prêmio em dinheiro à própria congregação, mas garante que vai seguir participando do projeto.
"Não acredito que eu mereça um prêmio por, entre aspas, 'descobrir' isso. Eu não fiz nada mais do que outros voluntários nesse projeto. Então prefiro que ele seja doado para uma boa causa", explicou Pace por telefone.
"Nossa tecnologia ainda é muito limitada, então esses números são cada vez mais difíceis de encontrar. Mas conforme os computadores forem ficando mais e mais rápidos, mais números primos serão descobertos."
 https://g1.globo.com/educacao/noticia/maior-numero-primo-do-mundo-e-descoberto-por-engenheiro-voluntario-nos-eua.ghtml

Alimentos feitos de insetos fazem sucesso na Suíça com apelo à sustentabilidade

Alimentos feitos de insetos fazem sucesso na Suíça com apelo à sustentabilidade
Comer insetos pode ser gostoso? Se depender do paladar suíço, a resposta é sim.
Produtos à base desses animais vêm se tornando um sucesso de vendas desde que foram lançados, em agosto passado.
Hambúrgueres e almôndegas produzidos com farinha de verme moído têm atraído tanta atenção dos consumidores que a procura desencadeou o desenvolvimento de novos petiscos com esse tipo de fonte proteica. Uma barrinha energética feita com grilos crocantes, passas e tâmaras é a nova moda, por exemplo.
A receita não chega a ser complicada. Insetos cultivados em criadouros higienizados na Suíça, Áustria e Bélgica são moídos e transformados em uma farinha. O pó, que é rico em proteína, é acrescentado em uma massa com outros ingredientes - como purê de grãos e temperos - e moldada no formato de uma carne de hambúrguer e almôndega.
A fabricante dos produtos à base de insetos argumenta que os alimentos são gostosos, saudáveis e sustentáveis. O supermercado que comercializa os itens está bem satisfeito com as vendas - a publicidade que os ingredientes inusitados geram que tem se mostrado muito boa para os negócios.
Defendendo o conceito de sustentabilidade no consumo, a marca mira nos jovens e capricha na aparência moderninha com uma divulgação gourmet, direcionada ao público hipster.
"O que queremos é abrir um novo mundo de possibilidades culinárias para nossos consumidores e convencê-los de que insetos são realmente deliciosos. Estamos cientes de que pode levar um tempo até as pessoas começarem a consumir insetos diariamente, mas estamos trabalhando por isso, todos os dias", afirmou Melchior Füglistaller, representante da empresa Essento, fabricante dos produtos.
"Estamos convencidos de que temos na Suíça consumidores que são amantes da boa comida, que têm uma mente aberta e provarão e gostarão dos produtos feitos com insetos. Não apenas por ser uma alternativa à carne, mas por razões culinárias mesmo", disse Andrea Bergman, representante da rede de supermercados Coop, à BBC Brasil.

Tabu e sustentabilidade

Populares na Ásia, os insetos são ainda geralmente um tabu na cozinha ocidental, apesar de serem ricos em proteínas e outros nutrientes.
A vantagem de incluí-los na dieta é o fato de serem relativamente baratos em comparação às carnes de gado, suína e de frango. Boa parte do marketing de promoção desses alimentos está focado justamente no argumento de que é "verde", e portanto bacana, consumir insetos.
"O consumo de carne demanda muitos recursos", afirma Melchior Füglistaller, representante da empresa Essento, fabricante dos produtos.
"Por exemplo, para se produzir um quilo de carne são necessários 15 mil litros de água e dez vezes mais ração do que seria necessário para alimentar insetos que produzissem a mesma quantidade de proteínas", argumenta.
Certamente o peso da carne no bolso influenciará a decisão dos suíços. Se um quilo de carne bovina moída e temperada para hambúrguer sai por 58 francos (R$ 190), no mesmo supermercado a apenas um corredor de distância é possível comprar o hambúrguer de inseto já embalado em porções de 170 gramas pelo preço de 52,60 francos (R$ 170) o quilo.
Ou seja, o consumo de "carne de inseto" se traduz em uma economia de cerca de 11% para o bolso do consumidor.

Peso no bolso

Os hambúrgueres alternativos são também uma resposta ao padrão de consumo alto e "insustentável" dos suíços.
A nação dos Alpes é uma das maiores consumidoras de carnes per capita no território da Europa. De acordo com um ranking organizado pela empresa de consultoria americana de alimentação Caterwings, a Suíça é o mercado onde a carne é a mais cara do mundo.
O preço médio do quilo de carne bovina está avaliado em US$ 49,68 (R$ 160).
De acordo com dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o padrão de consumo dos suíços é insustentável.
Em um relatório publicado em novembro, o secretário geral da organização, Angel Gurría, criticou os hábitos dos consumidores.
"A Suíça tem uma enorme pegada de carbono associada ao seu padrão insustentável de consumo. O consumo suíço está impondo significativa pressão (no meio ambiente) para muito além de suas fronteiras", escreveu.
O próprio país reconhece isso. Um relatório publicado pelo governo em junho passado apontou que os suíços precisam mudar seus hábitos alimentares em relação às carnes.
"Carnes: Nós consumimos 3 vezes mais que o necessário", afirma o documento assinado pelo líder Alain Berset.
Os suíços consomem na média 150 gramas de proteínas de diversas fontes a cada dia.
A consumidora Danielle Heer considera boa a ideia de promover a sustentabilidade, mas não deu uma nota alta ao sabor dos produtos à base de insetos. "Achei as barrinhas um pouco secas", avaliou.
Reportagem: Marina Wentzel, da Basileia (Suíça) para a BBC Brasil

A estudante Bárbara da Costa viajou para o Rio para fazer a matrícula com passagem comprada com as milhas de um professor

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É dela uma das 98 vagas disputadas em um dos vestibulares mais exigentes do país, em uma maratona de provas com ênfase nas matérias de exatas, feita por quase 6,3 mil alunos de todo o país.
"As provas discursivas de matemática e física são as mais difíceis do país, mais do que as do ITA", diz Francisco Antônio Martins de Paiva, o professor Max, que acompanhou a jovem e que há 20 anos dá aulas em turmas preparatórias para as provas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do IME. "A gente brinca que, se um professor conseguir acertar metade das questões, a escola pode contratar (para dar aula nas turmas regulares) de olho fechado", completa.
O perfil de Bárbara destoa da grande maioria dos aprovados no instituto - e nos cursos mais disputados das demais instituições de ensino superior do país -, egressos de escolas particulares e de classe média e alta.
Ela é a primeira pessoa da família a entrar na faculdade. A avó e a mãe, com quem morava em uma casa simples, trabalharam praticamente a vida inteira fazendo faxinas.

O professor Max foi buscar Bárbara no dia da mudança - para surpresa dele, restrita a uma mochila e um saco de supermercado. "A casa era um espaço entre dois imóveis, um vão de dois ou três metros, que a família cobriu e colocou uma porta improvisada. Sem estrutura nenhuma", ele lembra.

'Aos 21 anos, eu não sabia somar frações'

A realidade não era tão diferente da história do próprio professor. Max nasceu em Canindé, no interior do Ceará, e cresceu numa vila em que os moradores dividiam todos o mesmo banheiro. "Em casa não tinha uma mesa, eu estudava na rede", conta.
Em 1992 prestou o primeiro vestibular para História e, no início do curso, descobriu que era apaixonado por matemática. "Aos 21 anos, eu não sabia somar frações. Comecei a estudar sozinho, o que me abriu a possibilidade para que começasse a dar aulas particulares para ganhar algum dinheiro".
Fórmulas de matemáticaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image caption'Em casa não tinha uma mesa, eu estudava na rede', diz o professor de matemática
Ele mudou de curso, virou professor em uma escola pública e, pouco tempo depois, foi convidado por uma escola particular - para dar aulas de ciências.
No esforço para adquirir conhecimento por conta própria, resolvia dezenas de provas. Foi assim que descobriu os testes do ITA, entre os mais difíceis do país. "A primeira vez que peguei uma prova, não sabia resolver uma questão. Pensei na hora: 'opa, é isso aqui mesmo que eu quero'".
O que começou como desafio virou vocação. Há 20 anos ele é titular das turmas especiais do pré-vestibular.
"Também tive gente que acreditou em mim".


Como o vício em smartphones tem acabado com os bons modos


Casal usa celular em restaurante
ADAM POPESCU
DO "NEW YORK TIMES"
Proponho uma brincadeira: da próxima vez que você estiver com amigos ou em um encontro, meça quanto tempo passa antes que alguém pegue o celular para ver se recebeu alguma mensagem.
Quanto tempo passa, em média, sem que alguém olhe o telefone?
"Se isso acontece, o jantar acaba", disse Judith Martin, jornalista do "Washington Post" cuja coluna sobre bons modos, Miss Manners, é publicada por 200 jornais a cada semana.
"Não creio que alguém ouse fazer isso comigo", disse Martin.
A maioria de nós não conta com a autoridade conferida por 40 anos no comando de uma coluna de boas maneiras, mas, não importa quem você seja, pode ser impossível evitar que um interlocutor fique de olhos colados em seu brinquedinho móvel. (Uma pergunta ainda mais difícil: seus amigos ou seu par romântico gostam mais do celular ou de você?)
O problema de olhar de modo recorrente os nossos aparelhos eletrônicos tem um lado social e um lado fisiológico.
A cabeça humana média pesa entre 4,5 e 5,5 quilos, e quando curvamos nossos pescoços para escrever uma mensagem de texto ou olhar o Facebook, a atração gravitacional sobre a cabeça e a tensão no pescoço crescem até o equivalente a 27 quilos de pressão. Essa postura comum, compartilhada por pedintes e presidentes, resulta em perda gradual da curva espinhal.
O "pescoço de SMS" está se tornando um problema médico que aflige inúmeras pessoas, e a maneira pela qual mantemos nossas cabeças voltadas para baixo também acarreta outros riscos de saúde, de acordo com um estudo publicado no ano passado pela revista acadêmica "The Spine Journal".
Há provas de que a postura afeta o humor, o comportamento e a memória, e ficar encurvado frequentemente também pode causar depressão, de acordo com o Centro Nacional de Informações sobre Biotecnologia norte-americano. A maneira pela qual ficamos em pé afeta tudo, da quantidade de energia de que dispomos ao desenvolvimento dos ossos e músculos, e até mesmo a quantidade de oxigênio que nossos pulmões são capazes de absorver. A linguagem corporal, percepções de fraqueza vs. força: tudo isso é verdade.
E o remédio pode ser ridiculamente simples: basta sentar direito.
Psicólogos sociais como Amy Cuddy afirmam que ficar em pé com postura confiante, mantendo a cabeça erguida e os ombros retos, pode aumentar o fluxo de testosterona e cortisol no cérebro, o que serve para impedir muitos dos problemas acima. Por que não estamos respondendo a esses sinais? Pode ser uma questão de simples negação.
Será que a cegueira causada por desatenção é mesmo um problema, portanto?
Cerca de 75% dos norte-americanos acreditam que seu uso de smartphones não afeta sua capacidade de prestar atenção, em situações de grupo, de acordo com o Pew Research Center, e cerca de um terço dos norte-americanos acredita que usar celulares em situações sociais contribui para a conversação.
Mas será que contribui de fato?
Especialistas em etiqueta e cientistas sociais respondem em completo acordo: não.
O comportamento "sempre conectado" para o qual os smartphones contribuem nos leva a nos afastarmos de nossa realidade, dizem especialistas. E além das consequências de saúde, quando ficamos de cabeça baixa nossas capacidades de comunicação e nossos bons modos também encolhem.
"Acreditamos que o comportamento antissocial de alguma maneira não nos afetará individualmente", disse Niobe Way, professora de psicologia aplicada na Universidade de Nova York.
Way estuda o papel da tecnologia em dar forma ao desenvolvimento adolescente. As interações conduzidas de cabeça baixa nos afastam do presente, não importa em que grupo estejamos, ela diz. E não é problema só para os jovens. É um comportamento incorporado, aprendido, copiado e repetido, em boa parte por imitação aos adultos. Quando crianças veem seus pais de cabeça baixa, emulam essa ação. O resultado é uma perda de indicadores não verbais, e isso pode atrofiar o desenvolvimento.
"O que vem acontecendo, mais e mais, é que não conversamos com os nossos filhos", disse Way. "Nós os colocamos diante da tecnologia quando são pequenos, e, quando ficamos mais velhos, nos deixamos absorver por nossa própria tecnologia".
Todos já vimos essas coisas acontecendo. Recorde um dos métodos que os pais usam para acalmar crianças gritalhonas: "Pega essa iPhone aí, moleque, e aproveita", como descreve Way, em lugar de perguntarem o que está acontecendo, de proporem "vamos conversar: qual é o problema, meu filho?"
Ela acrescenta que "nós acreditamos que nossos filhos um dia saberão o que é uma interação boa e uma interação má, que eles terão empatia. Mas se vou ao quarto do meu filho e vejo sete adolescente lá todos afundados em seus celulares, todos silenciosos, o que está acontecendo é desengajamento de toda espécie. O problema não é o Facebook, mas a maneira pela qual eles usam o Facebook".
Todas as idades são afetadas.
Um estudo de 2010 constatou que crianças e adolescentes dos oito aos 18 anos passam mais de 7,5 horas ao dia consumindo mídia. De lá para cá, nossos vícios digitais continuaram a definir nossas vidas, em alguma medida. Em 2015, o Pew Research Center reportou que 24% dos adolescentes "estão quase constantemente" online.
E as coisas não são melhores entre os adultos. A maioria dos adultos passa 10 horas por dia ou mais consumindo mídia eletrônica, de acordo com um Total Audience Report da Nielsen no ano passado.
O Conselho Nacional de Segurança norte-americano reporta que o uso de celulares torna os motoristas mais propensos a acidentes do que a embriaguez ao volante, causando 1,6 milhões de colisões ao ano, a maioria envolvendo jovens dos 18 aos 20 anos. Um quarto dos acidentes nos Estados Unidos estão relacionados a mensagens de texto.
"Os aparelhos móveis são a mãe da cegueira por desatenção", disse Henry Alford, autor de "Would It Kill You to Stop Doing That: A Modern Guide to Manners". "É esse o nome que se dá ao estado de esquecimento maníaco que toma conta de alguém que se deixa absorver por uma atividade que exclua tudo mais".
A cientista social Sherry Turkle analisou 30 anos de interações familiares em seu livro "Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less From Each Other". Ela constatou que as crianças agora competem pela atenção dos país com os aparelhos eletrônicos destes, o que resulta em uma geração que teme a espontaneidade de um telefonema ou interação face a face. Olhar o interlocutor nos olhos hoje se tornou opcional, de acordo com Turkle, e a sobrecarga sensorial que enfrentamos pode muitas vezes significar que nossos sentimentos estão o tempo todo anestesiados.
Pesquisadores da Universidade do Michigan afirmam que os níveis de empatia despencam e que o narcisismo escapa ao controle, com efeitos sobre o desenvolvimento emocional, a saúde e a confiança, sempre que abaixamos nossas cabeças como se fôssemos avestruzes humanos.
Sean Parker, antigo presidente do Facebook, recentemente declarou que a plataforma foi criada para viciar, e para "consumir o máximo possível de seu tempo e de sua atenção consciente", o que ele caracterizou como equivalente a uma injeção de autoestima, causada pela dopamina liberada quando um post recebe likes.
"Isso literalmente muda nossa relação com a sociedade, e uns com os outros", disse Parker. "E provavelmente interfere com nossa produtividade, de maneiras estranhas. Só Deus sabe o que isso está fazendo com os cérebros de nossas crianças".
Mesmo assim, é provável que você esteja lendo este artigo em um aparelho móvel. E isso não é problema! (Desde que você não esteja ao volante.) Não estamos aqui para lhe dizer que jogue fora o seu iPhone e abandone a mídia digital. Mas como no caso de muitos vícios, admitir o problema é um primeiro passo para o tratamento. E, por sorte, a solução não é antitecnológica; Turkle diz que ela é na verdade pró-conversação.
Faça um esforço para interagir com as pessoas.
As desintoxicações digitais nunca foram tão populares, mas não são panaceia, e a realidade é que não existe uma solução simples e clara.
A resposta mais simples para todos nós é aquela que a Bíblia propõe: trate os outros como gostaria de ser tratado - e de preferência sem ter o smartphone na mão o tempo todo. Da próxima vez que você estiver na fila do caixa, ou parado no semáforo, olhe em volta. Quantas pessoas estão lá com você?
"Os seres humanos reais, de carne e osso, têm precedência", ralhou Martin. "Ignorar as pessoas com quem você esteja é rude, quer as ignore por conta de amigos virtuais ou de amigos distantes; isso equivale a esnobá-las".
Parece um conselho tão óbvio que soa quase estúpido. Mas o que a esperança da Dra. Turkle, de incentivar o diálogo sem denegrir os amigos digitais, revela é que obviamente não estamos dialogando o suficiente, no sentido mais simples do termo.
Alford, que escrevia uma coluna mensal sobre boas maneiras para o "New York Times", descreveu a questão como "esquecimento monomaníaco" - estar absorto a tal ponto em uma atividade que o resto do mundo termina excluído.
"Tratar a pessoa que está diante de você como menos importante que o seu celular em geral pode ser entendido como uma microagressão, como a garotada diz", ele definiu.
Muitos sabichões do Vale do Silício vão à guerra se alguém sugerir que os méritos da tecnologia não são uniformemente positivos.. Mas diante de uma mídia social que se tornou tão bruta quanto o pátio de uma escola, essa reação agora parece irrelevante.
Velhos ou jovens, somos todos, literalmente, uma geração de casos em teste. Etiqueta, bons modos, linguagem corporal, a maneira pela qual respondemos e interagimos e mesmo nossa aparência - tudo está mudando. Estamos abrindo mão de toda uma vida, que acontece apenas 90 graus acima de nossos celulares. Comece a olhar para cima.
"Jamais seja a primeira pessoa em um grupo a pegar o celular", recomendou Alford. "Não seja o paciente zero".
Tradução de PAULO MIGLIACCI
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/01/1954141-como-o-vicio-em-smartphones-tem-acabado-com-os-bons-modos.shtml

Por que comer muito rápido faz mal para a saúde

Comer depressa não dá tempo para o cérebro registrar que estamos satisfeitosHomem comendo hamburguer
Comer lentamente, saboreando cada mordida e sem distrações pode parecer um luxo para muita gente. Mas é fundamental para a saúde, segundo um estudo apresentado na conferência anual da Associação de Cardiologia dos Estados Unidos.
Devorar os alimentos não dá ao cérebro tempo suficiente para registrar que estamos satisfeitos. E aumenta em cinco vezes o risco de uma síndrome metabólica, caracterizada por um conjunto de fatores de risco relacionados a doenças cardiovasculares e diabetes, como obesidade, pressão alta e taxas elevadas de colesterol.

O estudo

A pesquisa, conduzida pela Universidade de Hiroshima, no Japão, acompanhou por cinco anos 642 homens e 441 mulheres saudáveis. Eles tinham 51 anos quando o estudo começou, em 2008.
Os participantes foram divididos em três grupos, de acordo com a velocidade que ingeriam os alimentos. O resultado? 11,6% daqueles que comiam mais rápido desenvolveram síndrome metabólica, bem acima dos índices observados nos outros dois grupos – entre os de velocidade média, o percentual foi de 6,5%, e os mais lentos, 2,3%.
Tudo indica que "comer mais devagar seria uma mudança de hábito crucial para prevenir a síndrome metabólica", afirma o cardiologista Takayuki Yamaji, que liderou o estudo.
"Quando as pessoas comem muito rápido, fazem isso de forma exagerada, porque não se sentem saciadas. Isso também causa variações no nível de glicose, que podem levar a uma resistência à insulina."
A síndrome metabólica tem como base a resistência à ação da insulina, responsável por regular o açúcar no sangue, o que obriga o pâncreas a produzir mais esse hormônio.

Desligar a TV para perder peso

Menino come em frente à TVDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO melhor para a saúde é comer devagar e evitar distrações, como a televisão
Um estudo anterior já havia indicado que comer devagar é uma estratégia eficaz para perder peso.
A pesquisa, realizada pela Universidade da Carolina do Norte, constatou que obesos que praticaram técnicas de mindfulness (estado de atenção plena) perderam 2 quilos em duas semanas, enquanto quem continuou a comer rápido emagreceu 300 gramas.
"Nosso estudo sugere que há uma associação entre comer com atenção plena e perda de peso", destacou a pesquisadora Carolyn Dunn, principal autora do estudo.
Ela e seus colegas aconselham não comer em frente à televisão nem na mesa de trabalho.
As recomendações estão alinhadas a práticas budistas milenares e de outras tradições para as quais comer com plena consciência é uma forma de meditação.

Meditação da tangerina

No livro Savor: Mindful Eating, Mindful Life ("Saboreie: alimentação com atenção plena, vida com atenção plena", em tradução livre para o português), o mestre budista Thich Nhat Hanh e a médica Lilian Cheung ensinam como se alimentar sem distrações.
Entre as técnicas apresentadas, está a "meditação da tangerina", que recomenda comer a fruta lentamente, refletindo sobre o processo da natureza para produzi-la e o trabalho necessário para que chegue à mesa, sentindo com gratidão o sabor doce e cítrico.
Assim, da próxima vez que tiver um prato de comida na sua frente, tente desligar a televisão, deixar o celular de lado e vá para longe da mesa de trabalho. Será um gesto de carinho com o próprio corpo desfrutar de cada mordida.