domingo, 18 de fevereiro de 2018

Disciplina e paciência podem ajudar no aprendizado de matemática

Cultura de imigrantes japoneses afeta aprendizado
ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
DE SÃO PAULO

24/12/2017

Quando era menino, o marceneiro Paulo Miyazaki Nicoletti, 55, chegou a ganhar como prêmio uma biblioteca por tirar a melhor média em todas as matérias.
Como ele, seus três filhos estudaram em escolas públicas e se destacaram.
Pesquisa de economistas do Ipea e do Inepmostra que netos ou bisnetos de imigrantes de várias origens têm resultados melhores na escola que os descendentes de ibéricos, e os japoneses são os que obtêm melhores resultados.
Paulo, porém, não atribui seu sucesso ou o de seus filhos à cultura da família. "Meu pai até reclamou de ter que ir buscar os livros que ganhei como prêmio. Acho que vem embutido nos genes mesmo", afirma.
É justamente o contrário do que tenta provar a professora Cristina Canto, que dá aulas para o segundo ano do fundamental. "Ninguém 'nasce para a matemática'. Todos podem aprender", diz.
CULTURA E APRENDIZADO
A estudante Thais, descendente de japoneses
Descendente de japonês está 1 ano na frente em matemática na rede pública
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Garota aprende a escrever português em 1,5 ano e banca aluguel da família
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Dificuldade em persistir em tarefas e fazer contas limita salário no Brasil
Quando ensinava para o sexto ano, ouvia de algumas crianças a queixa: "Nunca aprendi matemática na vida". "Mas que vida, gente? A vidinha delas mal começou."
Segundo Cristina, cativar os alunos para a disciplina e mostrar a necessidade de treino têm sido boas ferramentas para superar dificuldades.
Disciplina não era o forte da policial militar Cassia Helena Muyazaki Nicoletti Froes, 30, mas ela ia bem na escola. Para ela, as expectativas da família é que têm peso: "A gente é criada para nunca aceitar o mínimo suficiente.
Tem que ser sempre superbom em tudo".
A recepcionista Elisabete Shizuka da Silva Umeda, 28, só tirava 9 ou 10 em exatas. "Sempre quis mostrar para meus pais que eu era capaz." Elisabete diz que o pai, motorista, e a mãe, dona de casa, não cobravam esse desempenho: "Era uma coisa minha, mesmo".
No boletim da filha Samira, 8, as notas variam de 7,5 a 9. "Ela gosta de estudar, e eu acompanho bem de perto."
Entre os hábitos de família que passaram de uma geração para outra, segundo a recepcionista, está o de aprender a cuidar de si mesmo logo cedo: "Samira pediu para aprender, e já sabe limpar a casa, fritar um ovo".
Já funcionária pública Ana Paula Shinkawa Gomes, 37, diz que a preocupação com a escola era central em sua família: "Meus pais eram muito humildes e sabiam que para vencer na vida era preciso estudar. Eles trabalhavam para pagar professor particular para a gente".
Ela acompanha de perto a vida escolar dos três filhos, de 10, 8 e 3 anos: "Recebo muitos elogios, porque eles são educados, obedecem, respeitam muito e são participativos".
Ana Paula diz que, quando tiram uma nota "não tão boa", os filhos ficam chateados e tentam se esforçar para ir melhor na próxima.
DISCIPLINA
Pesquisas nacionais e internacionais já mostraram que características socioemocionais estão correlacionadas com o desempenho escolar: alunos mais disciplinados, por exemplo, são também os que têm notas mais altas.
Transformar isso em prática pedagógica ou política educacional, no entanto, não é tão simples, dizem economistas e especialistas em educação.
Na avaliação de Suzanne Duryea, pesquisadora de economia do setor social do Banco de Desenvolvimento Interamericano (BID), mais que o investimento dos pais, foi o gasto público dirigido à educação que levou a uma ascensão do nível educacional entre gerações nas Américas.
Duryea nota que em outros fenômenos, como o da violência doméstica, não foi observado esse progresso. "Isso pode indicar que políticas mais universais, que chegam às famílias por meio de instituições, como as escolas, são mais eficazes para romper os ciclos entre gerações."
O economista Naércio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, diz que, ainda que se saiba que características como concentração e disciplina ajudam no aprendizado, não há consenso sobre como inseri-las no ensino.
ESCOLARIDADE DAS MÃES
Para Menezes Filho, o resultado obtido pela pesquisa de Daniel Lopes, Leonardo Monasterio e Geraldo Silva Filho levanta a questão sobre o que há nas famílias de descendentes de imigrantes que poderia ajudar os brasileiros.
Uma das principais características ligadas ao desempenho escolar, segundo ele, é a escolaridade das mães. Os dados mostram que o aumento na educação dos pais está elevando as notas dos alunos no quinto e no nono ano.
"Será que, se a educação das mães brasileiras for equiparada à das descendentes de imigrantes, essa diferença entre os alunos vai desaparecer?", questiona.
O trabalho de Lopes, Monasterio e Silva Filho relata que a escolaridade dos imigrantes era superior à dos brasileiros quando eles chegaram ao país, no fim do século 19 e começo do 20.Entre 1872 e 1920, mais de 3,2 milhões de estrangeiros vieram ao Brasil. Em 1920, só 23% dos brasileiros sabiam ler e escrever. Entre os estrangeiros, eram 52%.
Dados também indicam que a escolaridade dos imigrantes japoneses superava a de outras nacionalidades.
NEM TODOS IGUAIS
Hiromi Shibata, professora titular da faculdade de educação da Unip (Universidade Paulista), alerta para o erro de considerar que todos os japoneses são iguais.
Shibata, cujo doutorado tratou da trajetória educacional dos nikkeis, diz que parte das famílias se beneficiou com a expansão do ensino e da industrialização nos anos 1930. "Quando a sociedade passa a exigir mais escolaridade, esses descendentes se destacam."
"Mas, ao mesmo tempo em que famílias nikkeis passam a ocupar espaço em escolas da elite paulistana, nos anos 1980 e 1990, outra parcela de descendentes passa a ir para o Japão trabalhar nas fábricas, aumentando a desigualdade", observa ela.
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RAZÃO E EMOÇÃO
Cinco competências sociemocionais que podem ajudar no aprendizado
1. Abertura a novas experiências
Leva a características como imaginação, curiosidade, amplitude de interesses e criatividade artística
2. Consciência
Inclinação a ser organizado, responsável, autônomo, disciplinado, não impulsivo e orientado para seus objetivos (batalhador)
3. Extroversão
Indivíduo é caracterizado como amigável, sociável, autoconfiante, energético, aventureiro e entusiasmado
4. Amabilidade
Tendência a agir de modo tolerante, altruísta, simpático, não teimoso e objetivo
5. Estabilidade emocional
Previsibilidade e consistência de reações emocionais, sem mudanças bruscas de humor
Fonte: "The Big-Five Trait Taxonomy: History, Measurement, and Theoretical Perspectives", Oliver P. John e Sanjay Srivastava,
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CULTURA E APRENDIZADO
Cinco características da cultura japonesa com reflexo na educação
1. Dívida de gratidão
"On": sentimento de débito em relação aos pais, ao professor, aos chefes ou a qualquer pessoa que tenha feito algo benéfico
2. Honra do sobrenome
"Giri": determinação de evitar situações embaraçosas que possam desonrar o sobrenome ou trazer vergonha para a família
3. Confiança
"Hakikaki": criança é estimulada a ser alerta, disposta, ativa, rápida e clara, e a falar pronta e francamente. Também é ensinada a dominar tarefas pequenas de forma progressiva e controlada, para desenvolver confiança em sua capacidade
4. Disciplina e esforço
"Ganbatte": paciência para persistir e aprimorar sempre o resultado; melhorias são cobradas mesmo de quem já obtém sucesso
5. Autocrítica
"Hansei": prática de fazer um autoexame e procurar sozinho as origens de suas fraquezas; também é praticado por grupos, examinando objetivos e métodos e desenvolvendo planos e metas para sanar falhas e aprimorar desempenho
Fonte: "Descendência japonesa e o bom desempenho em matemática: uma reflexão sobre as causas", Cristina Canto, Faculdade de Educação da USP

Ensino da linguagem digital

"Na nossa sociedade não precisamos explicar por que a matemática é importante. Isso já está convencionado. É diferente da programação", ressalta Tiago Maluta, responsável pelo Programaê!, projeto da Fundação Lemann que, em parceria com o MIT, desde 2014 oferece apoio gratuito a professores das redes pública e privada no Brasil, disponibilizando em seu site planos de aula para ensinar a codificar.
"Usamos um termo mais abrangente que é o pensamento computacional, que envolve raciocínio lógico, trabalho em equipe, resolução de problemas, criatividade", afirma.
"Há uma prática transversal nas disciplinas. Tem um conceito que gostamos de usar, do MIT, que é o programar para aprender. Eu programo para aprender uma disciplina da escola. Tivemos o caso de um professor de educação física que estava usando os elementos de ângulo do Scratch para ensinar seus alunos", conta Maluta.

Programação para crianças faz 50 anos

A história das ferramentas de programação destinadas a crianças é menos recente do que muitos pensam. Neste ano, faz 50 anos que o primeiro projeto educacional do gênero, o Logo, foi lançado nos EUA. Ele se tornou conhecido pela produção de gráficos tartaruga, que consistem em desenhos vetoriais criados por meio de comandos.
A data está sendo lembrada pela ilustração do Google, o Doodle, com uma animação inspirada na linguagem Logo, o que já fez o termo "linguagens de programação para crianças" saltar para o topo das buscas da ferramenta.
A BBC Brasil colabora com sua busca reunindo sugestões no Brasil e no mundo de como apresentar os pequenos à programação.

Livros

Com Code Babies, o web designer nova-iorquino John Vanden-Heuvel fez um livro de abas com muitas cores e símbolos usados na programação para que seu filho recém-nascido se familiarizasse com esses padrões.
Assim, surgiu uma série que inclui títulos como HTML for BabiesCSS for BabiesJavaScript for BabiesWeb Design for Babies e Web Colors. A linguagem visual também é utilizada em livros para crianças maiores, como C++ for KidsExcel for Kids e ABC of the Web.
Por sua vez, a analista de sistemas finlandesa Linda Liukas escreveu o livro Hello Ruby para apresentar conceitos básicos de codificação a crianças a partir de 4 anos. O objetivo, segundo ela, não é tornar a criança uma programadora, mas sim despertar o interesse pelo tema e desmistificar sua complexidade com exemplos de comandos, sequências e repetições.
Na história, traduzida em 20 línguas, a pequena Ruby perde sua coleção de pedras preciosas e embarca numa aventura para encontrá-las. No caminho, tem a ajuda de um leopardo, androides, uma raposa e um pinguim.
Código de programaçãoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionJogos e até brincadeiras presenciais podem acostumar alunos à ideia de dizer ao computador o que fazer

Brinquedos e brincadeiras

Robot Turtles é um jogo de tabuleiro tradicional em que a criança atua como um programador - o adulto é o computador. As tartarugas devem coletar pedras preciosas seguindo uma sequência de instruções. Sem perceber, elas vão aprendendo sobre sequências, loops, condições e algoritmos, conceitos básicos da programação. Indicado a partir dos 3 anos.
Já o Baby Codipeia, um brinquedo indicado a partir dos 3 anos, consiste em uma centopeia interativa em que cada segmento tem um comando de movimento - a criança pode criar sequências e determinar metas.
No Ozobot, um robô do tamanho de um bombom segue as linhas desenhadas pela criança em um papel e interpreta cada cor. Assim, são dados, por exemplo, comandos de velocidade e direção. Também é possível criar jogos e estipular objetivos. O brinquedo, que já recebeu vários prêmios, é indicado para maiores de 6 anos.

Cursos

Em diversos países estão sendo inauguradas escolas que prometem ensinar crianças em idade escolar a codificar.
No Brasil, SuperGeeks, MadCode, CtrlPlay, Code4All e Happy Code são algumas das franquias que apostam no nicho. Muitas usam jogos já populares como Minecraft e Roblox para chamar a atenção de meninos e meninas.
"Nossa proposta é mais do que programação, é ser uma escola das habilidades da nova economia do século 21, isto é, incentivar raciocínio lógico, trabalho em equipe, resolução de problemas, empreendedorismo e criatividade", comenta Alexandre Jacobs, sócio da Happy Code, no Rio de Janeiro, que oferece cursos para crianças acima dos 6 anos.
A franquia conta com 77 unidades no país e um total de 3,5 mil alunos. A meta é chegar a 150 filiais no ano que vem.

Sites

Quem não quiser pagar um curso, pode buscar sites que oferecem plataformas gratuitas, como Hour of Code, Code.org, Pivot Animator e Scratch, do MIT, que permite ao usuário criar animações e jogos usando uma linguagem com blocos similares a Legos.
O Scratch já foi traduzido em 50 línguas, contabiliza 200 milhões de visitantes únicos por ano e deu origem ao ScratchJr para iPad.
Há também alguns sites direcionados às meninas, como Girls who Code, Black Girls Code e Made with Code, do Google.
Quase todos usam cores, personagens, elementos de jogos com interfaces simples de usar.

Cinco lições que os chimpanzés podem nos dar sobre política

Chimpanzé fazendo gesto com a boca
No final dos anos 70, um drama político de que poucos se inteiraram se desenrolou na Holanda.
Yeroom era líder de uma comunidade e, depois de ficar no poder por muito tempo, tentaram derrubá-lo.
A liderança dele, cada vez mais autocrática, estimulou um jovem e ambicioso rival a reunir a seu redor um grupo de simpatizantes.À medida que Yeroom perdia seguidores e a confiança em si mesmo, o jovem rival se sentia cada vez mais fortalecido politicamente. Ele então ofereceu ao velho líder um cargo na nova administração.
Yeroom aceitou. Mas, em segredo, formou uma aliança com outro jovem, Niki, com quem planejou derrubar o novo líder.
Niki assumiu o poder, mas quem verdadeiramente seguiu no comando da comunidade foi o hábil e experiente Yeroom.
Mas toda essa disputa política, com maquinações e estratégias de poder, ocorreu num zoológico. Seus protagonistas: chimpanzés.Grupo de chimpanzés
A trajetória de ascensão e queda de Niki foi descrita no livro A Política dos Chimpanzés, de Frans de Waal, primatólogo holandês, professor da Universidade Emory e diretor do Centro Nacional de Investigação de Primatas em Atlanta, nos Estados Unidos.
O enredo da história demonstra que as manobras políticas desses animais conversam bastante com o mundo humano.Com base nisso, há cinco lições importantes que os chimpanzés, nossos parentes mais próximos no mundo animal, podem ensinar sobre política:

1. Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos, mais perto ainda

Esses primatas extremamente inteligentes vivem em grupos sociais de cerca de 50 membros. Assim como os humanos, os grupos deles têm uma hierarquia própria, o que inclui líderes.
E, da mesma forma como os humanos, os chimpanzés têm um enorme desejo por poder.
"Os grupos são dominados por machos. Os machos dominam as fêmeas e entre esses machos há uma luta para que um se destaque como o macho principal", explicou à BBC o professor Frans de Waal.Político falando ao público
"Isso é o que se conhece como sede por poder. Lutam para ocupar uma posição mais alta e para obter certos benefícios, como alimentos e fêmeas. Em alguns casos, surgem machos que permanecem como 'machos alfa' por até 12 anos."
É verdade que a disputa pela posição de macho alfa envolve certo grau de força física, mas os animais que alcançam o topo da hierarquia são, também, muito políticos.
"A força é medida pela quantidade de indivíduos que te apoiam e pela quantidade de amigos que tem dentro da política do grupo, porque um só indivíduo não pode controlar toda uma comunidade", explicou à BBC a pesquisadora Alison Cronin, diretora do Monkey World, em Somerset, Inglaterra, o maior santuário de primatas fora da África.

2. Quando estabelecer alianças, escolha alguém mais fraco e não mais forte que você

Um chimpanzé que quer ascender ao posto mais alto precisa de amigos, de aliados e, sobretudo, de uma estratégia.
Como explica Frans de Waal, os primatas formam coalizões de conveniência, que mudam continuamente.
"Se temos um grupo com três machos e um deles é extremamente forte, os outros dois tenderão a se aliar contra o mais forte. Eles sabem que, caso se unam ao macho mais forte, acabarão convertidos em um acessório de poder."Chimpanzés
"Por outro lado, se um deles se une a um macho tão fraco quanto ele, então formará uma aliança que será essencial para a coalizão", explica o especialista.
E é assim que se formam as coalizões de partidos políticos criados por humanos, conforme disse à BBC Simon Hix, professor de ciência política da London School of Economics and Political Science (LSE), do Reino Unido.
"Por exemplo, se temos três partidos em um parlamento, um grande e dois pequenos, a coalizão mais óbvia seria a do partido grande com um dos pequenos."
"Mas previsões mostram que é mais vantajoso que dois partidos pequenos se unam, se juntos puderem garantir mais de 50% dos votos, porque, neste caso, poderão dividir o poder entre si."Peões
"Se um dos partidos pequenos formasse a coalizão com o partido grande, este dominaria o pequeno e teria muito poder em suas mãos", completa o professor.
Os chimpanzés também adotam outras estratégias políticas muito similares as dos humanos.
"Quando um macho idoso deixa de ter condições de continuar como macho alfa, ele começa a procurar e a preparar um macho jovem para ser o futuro líder. E esse macho pode terminar se tornando o novo macho alfa", diz Waal.
"Também vemos isso ocorrer com seres humanos, com todos esses políticos velhos que continuam tendo enorme influência sobre um partido."
E Hix acrescenta: "Na política democrática, vemos que muitas vezes o líder de um partido nem sempre é a pessoa com mais poder dentro desse partido. (Uma pessoa) É líder de um partido durante pouco tempo, enquanto as figuras políticas poderosas se mantêm no partido durante 15 ou 20 anos".
O professor explica que são esses políticos poderosos que, na prática, conduzem as legendas. "Não querem à frente do partido alguém que possa ser mais poderoso que eles".

3. É bom que te temam, mas melhor que te estimem

Para os primatas, sejam chimpanzés ou humanos, a perspicácia política é que determina, no fim das contas, quem tem poder.
"Há muitos livros empresariais que dizem que, para ser um 'macho alfa', você não deve deixar que ninguém imponha a sua vontade. 'Dê um golpe na cabeça deles para que saibam quem manda, se assegure que sabem quem é o chefe, etc., etc.'", comenta Frans de Waal.
"Mas está demonstrado que os melhores machos alfa nas comunidades de chimpanzés não são necessariamente os agressivos e baderneiros, nem os machos maiores e mais fortes."
Segundo Frans de Waal, o mais importante é ter "simpatizantes" e mantê-los contentes. "Para isso é preciso ser diplomático. Os verdadeiros chimpanzés apoiam as vítimas depois de uma briga, as abraçam e acalmam."
"E essa também é a tarefa dos líderes nas sociedades humanas. Os verdadeiros líderes são os que vão aos locais onde ocorreram desastres, como terremotos, para oferecer apoio ao seu povo."

4. É bom que te estimem, mas é melhor ainda se você for capaz de distribuir prêmios

Os líderes querem o apoio das massas. Assim como os políticos estão atrás de votos, os líderes chimpanzés querem ser apreciados e capazes de distribuir benefícios para sustentar esse apoio.

4. É bom que te estimem, mas é melhor ainda se você for capaz de distribuir prêmios

Os líderes querem o apoio das massas. Assim como os políticos estão atrás de votos, os líderes chimpanzés querem ser apreciados e capazes de distribuir benefícios para sustentar esse apoio.
Chimpanzé abraça filhoteDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionChimpanzés líderes distribuem afeto, ainda que não seja genuíno
"Outra coisa que fazem é coletar comida para compartilhar com seus simpatizantes. (Toshisada) Nishida, cientista japonês que estudou um chimpanzé que foi macho alfa por 12 anos, descobriu que ele juntava carne e selecionava simpatizantes para compartilhá-la com eles. Em resumo, estabeleceu todo um sistema de subornos pelo qual obtinha vantagens a seu favor", cita Frans de Wall.
"Eles brincam com os filhotes das fêmeas. Em geral, não estão interessados nesses filhotes, mas beijam os bebês, assim como os políticos humanos."

5. Ameaças externas podem reforçar seu apoio (se elas realmente existirem)

Assim como explica Michael Bang Peterson, professor de psicologia política evolutiva da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, "quando pensamos em política, muitas vezes acreditamos que se trata de algo complicado".
"Mas a política na verdade trata de questões básicas sobre como nos relacionamos com os outros, quem são nossos amigos, quem são nossos inimigos, o que é bom ou ruim, quem merece ou não nossa ajuda", diz.
Assim como os humanos, os chimpanzés se veem envoltos em conflitos violentos com grupos rivaisChimpanzé dando a mão a um humano"Os chimpanzés são intensamente territorialistas e defendem seu espaço organizando grupos de patrulha, com machos de olho em possíveis ameaças externas ou em indivíduos que possam tentar invadir seu território", explica Alison Cronin, do Monkey World.
"E eles conduzem essas patrulhas de perímetro de noite e de manhã", diz.
Quando se veem ameaçados por um agente externo, os grupos de primatas se unem e esquecem as dissidências internas.
Existe um conceito usado na ciência política que reflete essa conduta nos humanos, "o efeito da união ante a bandeira", quando uma ameaça externa inesperada reforça o apoio a um governo. Um exemplo: a resposta aos ataques de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

'Creche zen' usa ioga, massagem e comida saudável para acolher crianças na periferia de São Paulo

O cenário é uma creche sem muitos recursos. Os protagonistas têm idade entre 1 a 4 anos.
O enredo esperado incluiria crianças agitadas, choro de bebê e professores meio tensos, certo? Na verdade, não. O ambiente no Centro de Educação Infantil (CEI) Ananda Marga, na Zona Norte de São Paulo, é bem diferente. Na sala do andar de baixo, duas professoras fazem massagem nos bebês, que vão, um a um, caindo no sono em seus colchonetes. Em outra, crianças cumprimentam a reportagem com a saudação indiana "Namaskar" e depois seguem cantando uma música sobre proteger a floresta, enquanto dançam usando posições de ioga que imitam animais. Essas são justamente algumas das atividades na rotina das crianças: prática de ioga por meio de histórias, alguns minutos de silêncio com olhos fechados e respirando com calma (como em uma meditação) e massagem.

Contato físico e afeto

Para a pediatra Ana Maria Costa da Silva Lopes, massagear crianças pequenas faz todo sentido quando se fala em desenvolvimento de bebês. "Hoje sabemos que é fundamental resgatar o contato do bebê com a mãe ou o cuidador. E a massagem é interessante porque facilita esse contato e a troca afetiva. Estudos mostram que o corpo a corpo com o bebê é importantíssimo para o desenvolvimento do sistema nervoso central", explica Ana Maria, que integra o Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). "Especialmente nos primeiros anos, esse desenvolvimento do sistema nervoso e da própria capacidade psíquica se dá por meio da interação com a voz humano, do aconchego e do corpo a corpo do bebê com o cuidador. Só que, atualmente, a correria a a introdução de telas fazem com que essas coisas venham se perdendo."

Respiração

Na creche, que é mantida por uma ONG em parceria com a prefeitura, as crianças maiores fazem massagens umas nas outras. Já na sala dos menores, de 1 a 2 anos, antes da hora da soneca as professoras fazem uma técnica milenar de massagem chamada shantala. Ela acalma o bebê, além de trazer outros benefícios. Todos deitados em seus colchões, eles vão dormindo assim que a professora massageia com a ajuda de um óleo natural os braços, as pernas, a barriga e o rosto. Para a pediatra Ana Maria, há atualmente muitos "fatores externos que fazem com que as crianças fiquem muito agitadas - seja por excesso de estímulo, como no videogame ou na TV, ou por estarem em um contexto mais violento, de agressividade física ou psicológica."
"Diante desse cenário, você introduz algo como massagem e respiração, isso ajuda a criança a ficar em um estado de organização emocional melhor e, assim, dar conta de fazer as atividades."

Merenda saudável

Outra abordagem diferente da creche no Jardim Peri está na alimentação, que é natural e vegetariana. Como todas as mais de 100 crianças ficam em período integral (das 7h às 17h), há cinco refeições: café da manhã, almoço, janta e dois lanches. Em todas elas, a maioria dos alimentos é in natura - raramente entra algo ultraprocessado, como bolacha recheada e achocolatado.
A BBC Brasil acompanhou as crianças almoçando. Pratinho na mão, uma a uma ia se servindo de arroz com cenoura, feijão reforçado com abóbora, beterraba, tofu frito e couve refogada. "Aqui, brigo com o açúcar. Também não deixo muito sal. Refrigerante também é proibido. Nossa comida aqui é muito bem elaborada, porque 85% das nossas crianças só comem aqui na creche. Usamos manteiga, grão-de-bico, ricota... E fazemos nosso iogurte. É melhor que o grego!", ri a filipina Didi Jaya, coordenadora da creche.
"Você vê que com a alimentação saudável as crianças ficam com a pele bonita. E a gente ensina os pais a fazer. Mas comida vegetariana é cara, então temos que nos virar e até pedir doação para os feirantes", conta Didi, afirmando que esse é, inclusive, seu maior desafio: a falta de verba.
Ela conta que de início os pais se assustam com o cardápio vegetariano, mas, depois, acabam vendo vantagens, especialmente no fato de as crianças comerem grãos e hortaliças. A pediatra Ana Maria afirma que, segundo a SBP, não há orientação para uma dieta vegetariana - nesses casos, é importante discutir com um pediatra. "Recomendamos evitar ao máximo alimento ultraprocessados, como aqueles salgadinhos de pacote, que têm muito sódio. O ideal para crianças é tentar sempre consumir alimentos o mais próximo possível de seu estado natural", afirma. Ela também ressalta que, no caso das crianças pequenas, a recomendação é a de se manter o aleitamento materno até o segundo ano de vida.
"Mas sabemos que a realidade nem sempre permite isso, então, é importante tentar manter a amamentação ao menos de manhã, antes de a criança ir para a creche, e à noite."
Reportagem: Mariana Della Barba / Imagens: Matheus Brant
 
 
 
 
 

Os segredos de Cingapura, apontado como o país com a melhor educação do mundo

Cingapura dominou os resultados do Programa de Avaliação Internacional de Alunos (Pisa, na sigla em inglês)
Cerca de 540 mil estudantes de 15 anos em 70 países participaram do exame, realizado a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
"As provas não só avaliam se o estudante pode reproduzir os conhecimentos adquiridos, mas se é capaz de ir além do que aprendeu e aplicá-los em situações pouco familiares e fora da escola", diz o comunicado do Pisa.
Isso requer a habilidade de "explicar fenômenos científicos, interpretar dados e realizar experimentos."
Com base nestes critérios de avaliação, Cingapura ficou em primeiro lugar nas três disciplinas avaliadas: Ciências, Matemática e Leitura.
O Brasil obteve posições baixas em todas elas, com um desempenho inferior à avaliação de 2012, e abaixo da maioria dos países da América Latina que também fizeram parte do teste: foi o 59º em Leitura, 63º em Ciências e 65º em Matemática. Já Cingapura ganhou posições nas três. Em 2012, havia sido o segundo em Leitura e Matemática e o terceiro em Ciências.Mas o que explica esse excelente desempenho dessa ilha-Estado do Sudeste asiático? Brandew Jeffreys, editora de Educação do site da BBC, foi até lá conferir. Confira seu relato:
"Se você pensa que Matemática é difícil, não vai conseguir aprender", diz Hai Yang, de 10 anos.
Junto a outros alunos da turma 4D da escola primária Woodgrove, ele está explicando as aulas da disciplina que eu estava acompanhando. A classe trabalhava em um problema. Os estudantes se revezavam, levantando-se para dizer como haviam resolvido a questão. E faziam isso em inglês, uma das diversas línguas faladas em Cingapura. No fim das contas, havia mais de uma solução correta. O mais impressionante era sua dedicação para entender exatamente como fazer isso.
"Se apenas copiarmos a resposta dada pelo professor, quando crescermos talvez a gente não saiba mais como resolvê-lo", diz outra aluna, Megna.

Fundamentos

Trata-se de uma abordagem conhecida como Domínio da Matemática, usado também em escolas da China e que vem sendo adotado em algumas instituições de ensino de outros países, como o Reino Unido.
Essa é apenas uma parte de uma história de sucesso que despertou o interesse do mundo.
Cingapura se beneficia de ter um sistema escolar enxuto, no qual professores são reunidos no Instituto Nacional de Educação para serem treinados.
Seu diretor, Tan Oon Seng, me disse que o instituto recruta professores com base no seu grau de conhecimento das disciplinas, e é esperado que eles garantam que cada criança compreenda os elementos básicos do ensino.
Em Cingapura, acreditamos em fundamentos. Para que uma criança seja bem educada, ela precisa aprender a linguagem e gramática de várias matérias, uma linguagem com a qual sejam capazes de ler, uma linguagem com a qual possam entender os números."
Cingapura também tem ensinado bastante sobre como tornar a profissão de professor uma atividade recompensadora. É algo que confere status, porque a competição para tornar-se um mestre é grande.
Professores podem seguir uma carreira que os leva a se tornarem diretores, pesquisadores em Pedagogia ou um grande especialista em salas de aula. Eles têm tempo para aprofundar seus conhecimentos e preparar as lições.

Criatividade

Mas Cingapura não está acomodada em sua posição de prestígio. Em duas escolas de ensino médio, testemunhei tentativas de tornar o aprendizado mais criativo. No colégio Montfort, adolescentes são encorajados a fazer protótipos de produtos que vão desde um sistema para regar jardins a um teclado eletrônico. Usar habilidades científicas e matemáticas para resolver problemas do mundo real é exatamente o tipo de capacidade que o Pisa foi criado para avaliar. No Montfort, uma sala vazia está sendo transformada em um "laboratório de inventores". Ferramentas simples e diversos materiais estão disponíveis para que alunos os usem no tempo livre e criem coisas que podem levar para casa. Se quiserem entender como iluminar seu violão com lâmpadas de LED, é ali que aprenderão isso.
"Queremos que o aprendizado esteja ligado à realidade do dia a dia, para que isso melhore a experiência não apenas em Ciências, mas em outras áreas", diz o professor Ricky Tan Pee Loon.
Outro aspecto que chama atenção na educação em Cingapura é que diretores mudam de escola a cada seis ou oito anos. Também há uma grande ênfase na colaboração.
Khoo Tse Horng, diretor da escola St. Hilda, diz que o modo de trabalho dos professores também é diferente. Quando ele começou a dar aulas, o mais comum era ser acompanhado por um mentor mais experiente.
"Hoje, os professores trabalham em equipe, crescem juntos, pesquisam juntos, trabalham juntos."

Concorrência

Mas a principal colaboração para o sucesso de Cingapura talvez venha dos pais dos estudantes. O sistema é competitivo, e um exame ao fim do primário influencia se a criança conseguirá uma vaga na escola que pretende frequentar na próxima etapa. No ensino médio, os estudantes têm um currículo acadêmico "expresso" e outro normal, que os leva a obter um diploma técnico ou vocacional. Então, às 20h de uma certa noite, acompanho crianças de até 4 anos estudando matemática usando ábacos (instrumentos antigos de cálculo). Lucas, de 6 anos, parece tranquilo ao correr contra tempo para resolver uma série de problemas. Seus pais, Eric e Nicole Chan, me dizem que trazem os filhos para uma hora de aula adicional para que eles ganhem uma confiança extra.
Há um lado negativo, retratado em um filme recente feito por voluntários da agência publicitária Splash, de Cingapura, em que uma menina fica deprimida e estressada na preparação para seu exame ao fim do primário. Jerome Lau, um dos diretores da Splash, diz que se inspirou na experiência de um amigo. "É injusto começar a julgá-los e rotulá-los. Toda criança tem o potencial de se dar bem na vida."
O sistema de Cingapura está mudando, em parte por conta do reconhecimento que a concorrência é alta. Então, alterações estão sendo implementadas na forma como a notas são publicadas e usadas para classificar os alunos. É um sistema que reconhece algumas de suas falhas, mas segue comprometido em permanecer entre os melhores do mundo.

Pode a Terra ou algum outro planeta sobreviver à morte do Sol?

Com 4,6 bilhões de anos, o Sol é hoje uma estrela de meia-idade, e sabemos que não deve durar para sempre. Um dia, em coisa de 5 bilhões de anos, ele esgotará o combustível nuclear que o mantém brilhando e inchará como uma gigante vermelha, mais de cem vezes maior do que é hoje. Esse será um dia ruim para os planetas mais internos do sistema. Mercúrio, Vênus e possivelmente a Terra serão engolfados pela tênue, mas fervente, atmosfera solar.

segunda-feira, 25 de abril de 2016